ANTÓNIO SÉRGIO E O NOVO NAVEGAR SAUDOSISTA

 

Paulo Motta Oliveira – UFMG

 

Lá onde escoa o Tejo, os Escultores

De entre a água erguerão altos heróis,

Poetas, Santos e Navegadores

(...)

Eu confio em ti, reza d’Heróis

E confiar em ti, não é vaidade

Vossos nomes de bronze são faróis

Que luz darão, à nossa tempestade

António Nobre[1]

 

Durante nove meses, de outubro de 1913 a junho do ano seguinte, Teixeira de Pascoaes e António Sérgio se digladiaram, nas páginas da segunda série de A águia, em uma das mais famosas polêmicas portuguesas do primeiro quartel do século XX. Se já em outro momento estudamos esse confronto, aqui pretendemos analisar outros aspectos do enfrentamento entre o autor dos Ensaios e os saudosistas, do qual essa polêmica fez parte. Focaremos nossa atenção em um aspecto fundamental para as propostas saudosistas – a importância das navegações – tema que será duramente atacado por Sérgio[2].

 

I – O tempo das navegações

 

As formas díspares como Sérgio e os saudosistas analisaram as navegações são respostas a uma questão mais ampla que, em Portugal, percorre todo o período que vai do vintismo ao Estado Novo: a questão nacional, que aparece no segmento mais importante das produções literárias, históricas e ensaísticas desse período. Existe uma esperança que é sempre um pouco desmedida, para além daquilo que, racionalmente, poder-se-ia esperar que ocorresse, e que se articula com a idéia de decadência, também recorrente, para a qual são formuladas múltiplas e variadas propostas de superação.

É no interior dessa problemática que se situam os vários olhares que as navegações receberam. De início, duas visadas sobre esse tema são fundamentais, as de Alexandre Herculano e o de Antero Quental. O primeiro, na Quinta das Cartas sobre a história de Portugal, publicada em 1842, tendeu a ver nas descobertas e navegações o efeito das atividades de um princípio monárquico já vitorioso, e, por isto, socialmente estéril[3]. Opondo-se ao que considerou efeito de “estudo superficial e irrefletido” – a visão do “século décimo-sexto como a verdadeira era da grandeza nacional”[4] – apontou que “a virilidade moral da nação portuguesa completou-se nos fins do século XV”[5], e que o esplendor do século XVI se deveu a uma geração que “foi educada pelo século anterior”, e, em vista disso, “O século décimo-sexto nada mais fez que aproveitar a herança da Idade Média”[6]. Para Herculano o poderio desse século, por mais que grandioso, é apenas aparente, pois a monarquia absoluta “no lugar da ordem põe a servidão; em vez do repouso da paz produz a quietação do temor; à moralidade substitui a corrupção dos costumes. Pervertida a índole nacional, enfraquecida a energia interior do povo, o poderio exterior começa a desmoronar-se logo”[7].

Todo esse discurso não é apenas uma reflexão sobre o passado. Como notou Eduardo Lourenço, o passado interessa a Herculano como uma forma de entender e atuar o seu tempo[8]. Também aqui é o presente que norteia suas reflexões. Para o autor de Eurico o seu tempo, em Portugal, caracteriza-se por uma retomada de certas características do período medieval, já que voltavam a ocorrer as lutas pela independência que haviam então existido[9]. Podemos perceber os motivos que levam Herculano a ver as navegações como fruto de um espírito monárquico já estéril. Na sua concepção da história de Portugal não existiria nenhuma relação entre o período das navegações e o seu presente. Este seria muito mais próximo da Idade Média, enquanto as navegações são, para ele, apenas um fato isolado, sendo o seu estudo, por isso inútil[10].

Quase trinta anos depois, Antero de Quental proferirá, em 27 de maio de 1871, a Causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos, conferência em que considera que a decadência da península, a partir do século XVII, só pode ser explicada se buscarmos as suas causas no século XVI. Se esse raciocínio de Antero é próximo ao de Herculano, também existem diferenças importantes entre esses dois escritores. De início é importante assinalar que se duas das três causas da decadência já haviam sido apontadas pelo autor de Eurico, o absolutismo e as navegações, o mesmo não ocorre com a terceira, o Concílio de Trento. Além disso, a segunda – as navegações -, que particularmente aqui nos interessa, aparece, no texto de Herculano, muito mais como uma conseqüência do absolutismo, do que propriamente como uma causa que ajudara à decadência. Sobre a transformação das navegações em uma causa da decadência, devemos notar que o próprio Antero mostra, em sua conferência, como é delicado o assunto, ao afirmar que está a fazer quase um sacrilégio. Para, porém, perceber o significado profundo dessa postura, é importante lembrar um trecho, já quase no fim da conferência, em que é dito: “Que é pois necessário para readquirirmos o nosso lugar na civilização? Para entrarmos outra vez na comunhão da Europa culta? É necessário um esforço viril, um esforço supremo: quebrar resolutamente com o passado”[11]. Para Antero, a única forma de Portugal recuperar o seu lugar na civilização seria quebrando resolutamente com o passado, ou seja, renegando aquelas características que, por mais que fossem fruto das causas apontadas, eram também o que constituía a identidade nacional. Negar as descobertas e as características tradicionais do país, era considerar que Portugal só teria saída se conseguisse se inventar outro, se alterasse radicalmente o que era e o que antes havia sido, refazendo-se à imagem e semelhança da Europa culta, da qual, então, passaria a fazer parte.

Como podemos notar, se existem diferenças entre as concepções de Herculano e de Antero, ambos partilham da concepção de que as navegações não podem trazer nada de positivo para o presente. O Portugal que Herculano enxerga, e o que Antero deseja, está em um tempo distinto do das navegações: para o primeiro um tempo que, em certo sentido, retoma as lutas que existiam na Idade Média; para o segundo, um tempo europeu, em que o espectro das navegações é um estorvo. Inúteis para o primeiro, prejudiciais para o segundo, as navegações são negadas não pelo que foram, mas pelo que ainda são ou pelo que não podem vir a ser.

Essa perspectiva será reformulada por um companheiro de geração de Antero, Oliveira Martins, que, em 1879, publicará a História da civilização ibérica, livro que termina com trecho importante para a questão que aqui estamos tratando:

 

Nós acreditamos firme e diremos até piamente (...) na futura organização das nações da Europa; cremos portanto em uma vindoura Espanha mais nobre e mais ilustre ainda do que foi a do século XVI. Acreditamos também que já hoje navegamos na viagem para este porto, embora os nevoeiros conturbem as vistas dos nautas agora que apenas acabamos de largar as costas do velho mundo. Que papel destina o futuro à Península (...)? A história não é profecia; mas o estudo das idades passadas deixa entrever muitas vezes as probabilidades futuras (...) A independência dos caracteres individuais e a nobreza do carácter coletivo deram e hão-de dar à Espanha, quando os seus áureos tempos voltarem, esse aspecto monumental e soberano que a distingue do mundo. (...) Daqui por séculos, alguém, ao declinar do sol dessa futura idade (...) fará para a vindoura Espanha o que nós acabamos de fazer com amor, para a Espanha do passado.[12]

 

Ao mostrar a trajetória da antiga Espanha católica para a nova sociedade que ainda está se formando como uma navegação, que partindo do velho mundo busca por entre nevoeiros o novo porto, ou seja, a futura idéia-síntese que irá congregar a sociedade, Martins acaba por criar um topos  que será recorrentemente utilizado a partir de então. O destino da península, ou, de forma mais restrita, o de Portugal, será, nessa perspectiva, o de conquistar um poderio semelhante ao antigo, através de novas navegações, não terrenas, mas espirituais. Assim, não só é recuperada a importância das navegações passadas, mas também elas se transformam em paradigma de um futuro a ser atingido. O tempo presente, separado das navegações por Herculano e Antero, de novo a elas se liga, na visão de Martins.

Essa idéia martiniana ganhará novos desdobramentos com “San Gabriel”, de Camilo Pessanha, publicado no Jornal Único de Macau em 25 de maio de 1898. No poema, em que Portugal é visto como uma nau presa em uma calmaria, o eu lírico, após afirmar: “Que cilada os ventos nos armaram!”, pergunta: “A que foi que tão longe nos trouxeram?”[13]. Essa questão, em que se pede um sentido ao já realizado, mostra que o significado das grandes navegações ainda não se completou, o que fica ainda mais patente quando o eu lírico pede a San Gabriel para que este de novo abençoe o mar e guie os portugueses à conquista final: “Vem guiar-nos, Arcanjo, à nebulosa / Que do além vapora, luminosa, / E  à noite lactescendo, onde, quietas, // Fulgem as velhas almas namoradas... / Almas tristes, severas, resignadas, / De guerreiros, de santos, de poetas”[14]. Apenas chegando a essa nebulosa, em uma viagem espiritual, é que os portugueses, com a ajuda do arcanjo Gabriel, poderão atingir um novo estado em que o já feito ganhará seu verdadeiro significado, em que a navegação, iniciada e interrompida no passado, será finalmente completada. O que em Martins era uma analogia entre a missão passada e o destino futuro aqui se converte em uma construção mais intrincada: não apenas existe essa analogia, mas o passado não possui um significado em si, já que é apenas o início de algo que só em um futuro poderá se consumar.

Como podemos notar, se existia uma semelhança entre os raciocínios de Antero e Herculano, ela também pode ser encontrada entre os de Martins e Pessanha. Para estes, em confronto com os primeiros, a experiência das navegações possui relação com o presente, pois nelas se criou um certo aprendizado que possibilitará ao país, ou a toda Península Ibérica, estar preparado para outras formas de navegar, que, em ambos os casos, não mais serão em mares concretos, mas em um outro tipo de oceano, de carácter espiritual.

 

II – O novo navegar

 

A diferença básica entre as posturas dos dois grupos que aqui assinalamos estará presente nas perspectivas dos saudosistas, mais próximos de Martins e Pessanha, e na de Sérgio, mais próximo de Antero e Herculano. Para entendermos as idéias dos primeiros, e os motivos que levaram o segundo a entrar com elas em confronto, é necessário que analisemos o contexto em que o topos das navegações aparecerá nos primeiros volumes da Segunda série de A águia.

Como já indicamos em outro contexto, no primeiro volume aparecem os contornos iniciais desta visão, em parte dispersos em vários textos de Pascoaes e, de forma mais explícita, em dois poemas: o “Regendo a sinfonia da tarde” de Jaime Cortesão e o “O poeta e a nau” de Augusto Casimiro, esse segundo possuindo várias semelhanças com o San Gabriel de Pessanha[15]. Como não temos aqui o espaço necessário para uma análise mais detida dessa produção, gostaríamos apenas de apontar que, se pensarmos nos dois primeiros volumes em conjunto, Jaime Cortesão, Fernando Pessoa, Teixeira de Pascoaes e Augusto Casimiro constróem, em seus textos, um vasto painel em que algumas verdades são insistentemente repetidas[16]. Portugal encontra-se em um momento genésico, de elaboração de uma nova síntese religiosa, momento este que é considerado como herdeiro de uma série de características, sejam especificamente portuguesas, sejam mundiais, que estão há muito sendo geradas. E essa gênese ocorre através do fazer poético, que é elevado, por estes autores, à categoria de novas descobertas. Se os navegadores, graças ao esforço de se lançar a espaços ainda não conhecidos e, portanto, ainda não anexados à cultura européia, conseguiram em seu tempo dar à Europa o que ela necessitava, estes poetas-navegantes partiam em uma aventura semelhante, a de construir uma nova síntese religiosa, navegando por territórios ainda inexplorados, que a Europa precisava, na sua nova ânsia religiosa, de forma análoga à necessidade que tinha tido, no passado, das regiões descobertas pelos portugueses.

Como podemos notar, o que nos textos de Oliveira Martins e Camilo Pessanha era um desejo, se transforma em realidade presente. As navegações, para os saudosistas, já estão ocorrendo e são, como foram as do passado, um esforço coletivo: vários poetas estão realizando, neste novo mar em que se converteu o espaço poético, uma síntese religiosa que terá dois resultados fundamentais: por um lado, fará com que o deserto em que se converteu Portugal, esse país em que os portugueses estão afastados da alma nacional “pelas más influências literárias, políticas e religiosas vindas do estrangeiro”[17], possa de novo se transformar em um espaço fértil; por outro, essa nova navegação completará superiormente a missão portuguesa interrompida no passado:

 

Sim: a alma lusíada tem de completar a sua obra iniciada com as Descobertas. O espírito da aventura, que é a Tentação do Mistério, levou-a por entre o negrume lampejante dos temporais, através dos mares desconhecidos, por mares nunca de outrem navegados; e, no seu regresso à pátria terra, trazia nas mãos o globo descoberto. Eis a nossa dádiva ao género humano. Mas, só por si, o mundo físico é um esboço apenas, é corpo sem espírito.

A alma lusíada precisa completar a sua obra, dando ao mundo material que descobriu, uma nova expressão espiritual, um novo sentido religioso que o torne presente aos olhos de Deus, mais uma vez. Ela precisa, enfim, de concluir espiritualmente o que materialmente iniciou, porque a vida corpórea é o meio, mas a vida espiritual é o fim.[18]

 

Existe assim, na concepção desses escritores, uma evidente relação entre o navegar e o presente do país. As novas navegações, realizadas pela poesia, estariam completando aquilo que, nas navegações do passado, teria ficado incompleto e por se cumprir.

 

III – Acordai marinheiros

 

Será justamente essa visão de um novo navegar que será discutida e questionada por António Sérgio. Se isso ocorrerá, de forma lateral, na polêmica que travou com Pascoaes, terá um papel preponderante em outros textos, em especial em dois poemas que, por serem pouco conhecidos, gostaríamos de aqui privilegiar.

No terceiro número da segunda série de A águia, António Sérgio publicará os eu “Apostilha aos Navegadores”:

 

Ar de névoas... Nem luz, nem sombras... Nevoeiros...

Mar de névoas também... Reflexos turvos... Lago

De chumbo, o mar, e o céu... O Ser-Não-Ser... O vago

E o silêncio, a ilusão, o torpor... – Marinheiros!...

 

Névoas... Névoas... Nem luz, nem sombras... – Marinheiros,

Marinheiros!... Um ar d’espectros... Triste afago

Do sonho, a sombra-luz e o seu silêncio mago...

E a incerteza, a ilusão, o torpor... – Marinheiros!

 

- À escota! Ao leme! Andai! Desperta a claridade!

Fugi, prestígios vãos, e sombras da Saudade!

Tudo que foi, além, p’la popa, o mar esconde...

 

O Passado, esse é morto – e jaz em paz no escuro!

Novos Navegadores, naveguem... Para onde?

Naveguem NO PRESENTE ao rumo do futuro![19]

 

O soneto é bastante explícito. Partindo do tópico da navegação, presente em muitos dos textos saudosistas, Sérgio o altera de forma radical, propondo um outro navegar, não voltado para o passado, forma como interpreta este navegar saudosista, mas no presente e em direção ao futuro[20].

Por esse soneto podemos concluir que para Sérgio o navegar saudosista é feito de características totalmente inconsistentes, uma repetição de termos sem sentido. Isso é indicado não só pela insistente repetição de palavras e expressões que remetem para o campo semântico do que é vago e inconsistente, mas também pela própria estrutura dos quartetos, formados por uma sucessão de pequenas expressões, cercadas de reticências, nas quais não está presente nenhum verbo. Este discurso sonambúlico só é interrompido pelo chamamento “Marinheiros!”, três vezes repetido, como que a querer acordá-los deste sono ilusório.

Os tercetos opõem a este primeiro discurso um tom afirmativo, repleto de verbos e exclamações. O primeiro verso contrapõe aos anteriores não só um agir evocado por uma sucessão de imperativos, mas também pela claridade, que destrói a sombra da Saudade e seus prestígios vãos. Os quatro versos finais deixam bem explícita a forma através da qual Sérgio analisa o tempo: o passado, para ele, é morto, nenhuma serventia tendo para o presente. Apenas este, em constante evolução para um futuro, é que importa[21]. É essa, para ele, a única navegação possível.

Como podemos ver, existe nesse soneto uma total desqualificação das propostas e do próprio discurso saudosista. Este movimento, para Sérgio, está no erro, por não navegar para o futuro, e ficar preso ao passado e a tudo aquilo que, por ser vago e falso, de nada pode servir ao país. Usando a claridade de sua razão Sérgio vê nas propostas do Saudosismo uma sucessão de fantasmas e espectros que é preciso exorcizar para que o país possa navegar na correta direção.

Essas idéias de Sérgio serão retomadas, algum tempo depois, em um outro poema, “Pela grei”, publicado no quinto volume da revista, que abaixo reproduzimos:

 

PELA GREI

Os que sonham

               A Augusto Casimiro, em resposta à sua carta.

Uma nação que não está a par de seu tempo é forçosamente uma nação miserável... O gênero humano, que sempre caminha avante, deixará acaso após si esta porção de seus membros, chamada nação portuguesa?

 

ALEXANDRE HERCULANO

 

Sonhais, amigos meus: sonhais, vagando

No saudoso jardim das ilusões;

Entre um povo de Espectros e Visões

Teceis um sonho etéreo, ingênuo e brando...

 

A Sombra dos avós-nevoento bando-

Num nimbo vos cercou de cerrações:

A chama, o ardor da vida, os seus clarões,

Ela os muda em sol-pôr, crepusculando...

 

Ah! meus amigos, como é bela a vida

E a mente clara se arroja à lida,

E à acção, e à idéia, vai chamando os povos,

 

Revolve a terra, cruza o mar profundo,

- Olhos na busca de horizontes novos,

- Pulso na faina directriz do mundo![22]

 

A dedicatória do poema a Augusto Casimiro, o poeta saudosista com produção mais sistemática nos três primeiros volumes, já deixa claro quais são os interlocutores que pretende atingir com o soneto. A epígrafe de Herculano também tem objetivos para além do que vem nela escrito: referenda a postura recorrente de Sérgio de se considerar um discípulo e continuador das idéias do solitário de Val dos Lobos. Emoldurado pela dedicatória e pela epígrafe, encontramos no soneto uma postura muito próxima à que existia no “Apostilha aos navegadores”. Nele se opõem duas visões distintas, a dos que sonham ­ que, por todo o contexto, são os saudosistas, com suas infundadas esperanças de um reerguimento gerado por um passado que não mais existe – e a dos que, agindo com mente clara, modificam o mundo[23]. Esta oposição entre os dois campos mostra bem, mais uma vez, que a conciliação entre as duas posturas, para Sérgio, é impossível. Ou se sonha fixado em um passado que não mais existe, e fica-se fora do fluxo sempre para adiante que caracteriza a humanidade, como afirma Herculano na epígrafe, ou se entra em compasso com o tempo presente, e se abre ao sol da vida, marchando resolutamente para a frente como então ocorria, na visão de Sérgio, com os principais povos europeus, e em especial com a Grã-Bretanha. Assim, temos neste soneto a reelaboração, em forma poética, do que Sérgio recorrentemente afirmou em todas as suas participações na segunda série de A águia desde o referido poema publicado no terceiro volume, ou seja, a necessidade de romper com o passado e entrar em contato com o mundo moderno, única maneira de reerguer um país atolado em recordações de um passado que não tem mais existência concreta.

Certamente, como estes sonetos nos mostram, nem os saudosistas poderiam aceitar a postura de Sérgio, nem este a dos membros desse movimento. Nessas posturas podemos notar um confronto entre duas tradições diversas. Sérgio, considerando-se um herdeiro de Herculano e Antero[24], afirma que mais nenhum papel cabe às navegações no presente de Portugal. Já Pascoaes e os demais saudosistas tentarão mostrar que o navegar ainda não está completo, e que é através de um mar de poesias que o futuro do país poderá ser construído.

Se Sérgio tem uma visão mais realista do país, e se degladia com seres que, como ele mesmo virá a afirmar ironicamente, constróem um “mundo fantástico e seráfico onde as montanhas são de mel, e os rios são de leite, e os pássaros dão flor, e das ginjeiras brotam homens, como das nossas brotam ginjas...”[25], será justamente o outro grupo, chefiado por Pascoaes, que, atualizando uma tradição que como vimos se inicia em Martins, virá a formular algumas das intuições básicas que estarão presentes no Mensagens de Fernando Pessoa. A visão das navegações como parte de uma missão ainda por se completar, que aparece entre outros no poema “O Infante”; a importância que o eu poético assume em poemas como “A última nau”; e até mesmo a visão de uma nova eucaristia em que se dará a consumação dos tempos, presente em “O quinto império”, todas estas construções podem ser vistas como releituras, feitas por Pessoa, de alguns tópicos que já estavam presentes nas reflexões saudosistas.

Assim, se Sérgio reelaborou uma tradição que via as navegações como características de um tempo passado, que nenhuma relação possuía com o presente do país, serão os saudosistas, com a sua criação de um novo navegar, que fornecerão algumas das vigas mestras que, anos mais tarde, serão utilizadas na obra do principal poeta português do século XX.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

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[1] Nobre, 1945, p. 112.

[2] Estudamos essa polêmica em Oliveira, 1995, p. 217-364. Nessa comunicação articulamos algumas idéias, já parcialmente apresentadas em Oliveira, 1996; Oliveira, 1997 e Oliveira, 1998.

[3] Herculano, s.d. (b), p. 154-5.

[4] Herculano, s.d. (b), p. 129.

[5] Herculano, s.d. (b), p. 131.

[6] Herculano, s.d. (b), p. 134.

[7] Herculano, s.d. (b), p. 155.

[8] Cf. Lourenço, 1982.

[9] “O renascimento (...) foi a restauração completa da unidade como princípio dominador e exclusivo, salva a distinção das nacionalidades, que ficou subsistindo. (...) O que são as revoluções do nosso tempo? São um protesto contra o renascimento; uma rejeição da unidade absoluta; uma renovação da tentativa para organizar a variedade” (Herculano, s.d. (b), p. 3-4-.

[10] Essa perspectiva será confirmada pela sua História de Portugal, em que, por sinal, será analisado apenas o período que vai “Desde o começo da monarquia até o fim do reinado de Afonso III”. Herculano, s.d. (a), p. 3.

[11] Quental, 1982, p. 294.

[12] Martins, 1973, p. 338-339. Esse trecho responde, de forma indireta, a certas perguntas, com que se fecha o História de Portugal: “Continua ainda a decomposição nacional, apenas interrompida de um modo aparente pelas idéias revolucionárias e pela restauração das forças econômicas fomentadas pelo utilitarismo universal? Ou presenciamos um fenômeno de obscura reconstituição, e sob a nossa indecisa fisionomia nacional, sob a nossa nudez patriótica, sob a desesperança que por toda a parte ri ou geme, crepitará latente e ignota a chama de um pensamento indefinido ainda?” (Martins, s.d., II, p. 211).

Como podemos notar, esse pensamento indefinido estava sendo gerado, se não especificamente em Portugal, ao menos em toda a Ibéria.

[13] Pessanha, 1973, p. 40.

[14] Pessanha, 1973, p. 41.

[15] Este poema: “Vai errante, no Mar, uma nau sem governo... / O oceano é chão, o céu azul fundindo em aço.. / As velas mortas... Nem sequer vento galerno / As vem inchar para dormir no seu regaço!... // Sobre o antigo convés pesa um velho cansaço, / E ou destino fatal ou maldição do inferno, / O mastro grande em vão aponta para o espaço... // - Sobre as ondas a nau é um cárcere eterno! // Dominando em redor, lá na gávea mais alta, / Um marujo, a cantar, fala do Além, e exalta / Um passado esplendor sobre a nau sepulcral... // “Porque o vento há-de vir aninhar-se nas velas! / “Porque a nau voará, - tocará as estrelas!...” // - O marujo é Poeta – e a nau... Portugal!” Casimiro, abr. 1912, p. 129.

[16] Os textos fundamentais dessa construção são os de Teixeira Pascoaes, Jaime Cortesão, Augusto Casimiro e Fernando Pessoa.

[17] Pascoaes, fev. 1912, p. 34.

[18] Pascoaes, 1988, p. 173.

[19] Sérgio, abr. 1913, p. 133.

[20] Sérgio parece cair aqui no mesmo equívoco que, segundo Lourenço, a crítica teve em relação à obra de Pascoaes, o de supor que a Saudade é o “reflexo de um pendor passeísta, forma insuperável de recusar através dela não apenas o presente como o futuro”. Como afirmou Lourenço em relação ao autor de Marânus, e consideramos válido para o Saudosismo como um todo, é em termos de uma futuridade “como horizonte cada vez mais revelador do percurso havido e da verdade nele contida que Pascoaes mitificou a pátria e não como mero acontecer-passado a regozar em êxtases de duvidosa plenitude” (Lourenço, 1982, p 109).

[21] Um dos temas que será discutido em vários artigos da polêmica Sérgio-Pascoaes será o de se o passado pode ou não fornecer energias para o presente. Para Sérgio é o presente que fornece energias ao passado, sendo este portanto, como ele expressa no poema que estamos analisando, morto, e totalmente inútil.

 

[22] Sérgio, maio 1914, p. 147.

[23] Devemos notar que ambos os sonetos de Sérgio possuem visível semelhança com o “A um poeta” de Antero de Quental, poema em que também existe uma oposição entre o dormir e despertar e a presença do sol que “Afugentou as larvas tumulares...” (Quental, 1968, p. 52). As semelhanças, facilmente perceptíveis, servem como uma espécie de reforço para as idéias de Sérgio, que se considerava como herdeiro das concepções do autor dos Sonetos.

[24] Essa filiação, sempre apontada por Sérgio, pode ser notada, entre outros, no seguinte trecho: “Como a história se repete na nossa terra desgraçada! Pois que significa esta palestra, senão um mínimo episódio (mínimo, decerto, porque eu não sou ninguém) na grande luta portuguesa entre o Isolamento e a Cultura, entre a Inquisição e o Humanismo, entre os Jesuítas e Verney, entre Pina Marques e os pedreiros livres, entre os rigoristas e os franceses, entre os Ouriquistas e Herculano, entre o grupo de Castilho e Antero de Quental?” (Sérgio, jan. 1914, p. 5).

[25] Sérgio, jan. 1914, p. 4.